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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Lar Provisório

http://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2011/04/28/69280-lar-provisorio.html


28 / 04 / 2011
Lar provisório


Os processos migratórios ocorrem hoje na América Latina de maneira muito mais complexa do que no passado. Em função disso, os desafios teóricos e metodológicos para analisá-los também se tornaram muito maiores.

A avaliação foi feita pelo chileno Jorge Rodrigues, pesquisador do Centro Latino-Americano e Caribenho de Demografia (Celade) da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), durante o Seminário Internacional Mobilidade Espacial e Vulnerabilidade Social: desafios teóricos-metodológicos e resultados de pesquisa, realizado nos dias 26 e 27 de abril na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O evento integra a programação da Semana Daniel Hogan, promovida até o dia 29 pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp para homenagear e apresentar resultados das pesquisas que o demógrafo, que faleceu há exato um ano, coordenava no Nepo.

Hogan foi pró-reitor de Pós-Graduação da Unicamp de 2002 a 2005. Nascido nos Estados Unidos, graduou-se em letras pela Universidade Le Moyne College e fez mestrado em sociologia do desenvolvimento (1968) e doutorado em sociologia e demografia (1974), ambos pela Universidade Cornell.

Hogan foi um dos pesquisadores principais do Projeto Temático “Crescimento urbano, vulnerabilidade e adaptação”, coordenado pela professora Lucia da Costa Ferreira e que está inserido no Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

De acordo com Rodrigues, os três principais tipos de migração mais estudados na América Latina são do campo para a cidade, e entre regiões ricas e pobres e a migração internacional. Elas são muito distintas e têm como principal causa as desigualdades socioeconômicas territoriais. Por isso, exigem metodologias específicas e adequadas à realidade latino-americana para estudá-las.

“A ideia de uma grande teoria de migração, que explique por que as pessoas mudam, é utópica. O que podemos fazer é lançar teorias que tenham um alcance médio, além de uma relação e elementos de articulação com os diferentes tipos de migração para analisar suas causas”, disse.

A migração do campo para a cidade, que já foi considerada a mais importante na América Latina, ainda persiste na região. Isso porque nas décadas de 1980 e 1990 os países latino-americanos passaram por graves crises econômicas, que afetaram principalmente as zonas urbanas metropolitanas.

Além disso, apesar da modernização que ocorreu no campo nos últimos anos em alguns países latino-americanos, principalmente no Brasil, esse avanço não se traduziu em melhores condições de vida para a população que vive no meio rural, segundo Rodrigues.

“O campo ainda apresenta menores níveis de educação, de oportunidades e de melhores empregos em comparação com as cidades, enquanto que centros urbanos são vistos pelos latino-americanos como um lugar de oportunidades. E isso contribuiu para a continuidade do fluxo migratório do campo para a cidade”, disse.

Devido à manutenção desse quadro, segundo ele é preciso desenvolver marcos conceituais para analisar esse tipo de migração, além de realizar pesquisas sobre as consequências desse processo.

Rodrigues aponta que a maior parte dos estudos realizados sobre esse tema nos últimos anos tem se preocupado mais com os fatores responsáveis pela migração do campo para a cidade, e não com seus impactos. “Essa pode ser uma nova linha de pesquisa interessante e importante do ponto de vista de desenvolver novas metodologias”, pontuou.

Em comum, de acordo com Rodrigues, a maior parte dos países da América Latina apresenta disparidades socioeconômicas territoriais, como, por exemplo, as diferenças entre as regiões Sul e Sudeste do Norte e Nordeste do Brasil e dos Andes para outras regiões de países como o Peru.

Cada cidade latino-americana, porém, apresenta desigualdades sociais e econômicas muito distintas das outras, o que torna difícil desenvolver um marco teórico para analisar e compreender os fluxos migratórios entre cidades na região, os quais envolvem um número muito maior de pessoas do que a migração do campo para a cidade.

Para tentar superar esse desafio, o Celade, sediado em Santiago, desenvolveu o software Redatan, que processa dados dos censos demográficos realizados por 15 países da América Latina na década de 2000. Com base nisso, os pesquisadores chilenos pretendem construir uma matriz de migração entre todas as cidades de cada país da região.

“Com o programa, que pode ser baixado diretamente no site do Celade, temos a possibilidade de trabalhar com a maioria das bases de dados demográficos da América Latina. E isso não é uma tarefa fácil, porque é preciso reunir dados de municípios distintos e desenvolver sofisticadas metodologias. Mas já temos alguns dados que foram divulgados em um congresso que ocorreu em Cuba em 2010”, disse Rodrigues à Agência FAPESP.

Buscas diferentes – Uma das principais constatações do estudo é o aumento do intercâmbio entre pessoas na América Latina. Das 1,5 mil cidades latino-americanas analisadas, a maior parte das que possuem mais de 50 mil habitantes apresenta saldo de migração positivo. As cidades que estão perdendo habitantes para outras são as menores, com menos de 50 mil habitantes.

Uma das explicações do grupo do Celade para essa diferença é que as cidades maiores, que ganham população, são mais dinâmicas economicamente, com alta demanda por emprego, que é o principal motivo da migração entre cidades. As com menos de 50 mil habitantes, que perdem população, são as cronicamente pobres, com pouca penetração de tecnologias modernas, como internet sem fio.

Entretanto, em meio a cidades ricas ou cronicamente pobres, há outras que não são tão atrativas em termos de pujança econômica como as cidades com mais de 50 mil habitantes, mas que apresentam excelentes oportunidades educativas e culturais, por exemplo. O que, segundo Rodrigues, torna muito mais difícil a análise dos fatores de atração e de expulsão e o fluxo de migração entre as cidades.

“No passado, havia uma ideia de que as pessoas partiam de uma cidade pequena para chegar a uma cidade grande, como São Paulo, Rio de Janeiro ou Porto Alegre. E, hoje, não necessariamente os migrantes estão indo para as grandes cidades. Eles podem até ir para as grandes cidades, mas logo se deslocam para uma cidade pequena ou média”, analisou.

Para explicar como esses fenômenos ocorrem, de acordo com Rodrigues, é preciso coletar e analisar os dados de cada cidade para analisar como elas se relacionam com as outras no intercâmbio de pessoas. (Fonte: Elton Alisson/ Agência Fapesp)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Enquanto o Japão sofre com Fukushima, o Brasil fala em Angra 3

Energia nuclear no Brasil pós-Fukushima

ILDO SAUER

É natural que países sem recursos energéticos lancem mão da opção nuclear, mas a dotação de recursos do Brasil permite outra estratégia


Após duas décadas de hibernação dos planos nucleares, no final do governo anterior foram anunciadas a conclusão de Angra 3 e mais quatro usinas, possivelmente às margens do rio São Francisco. A previsão de investimento é da ordem de R$ 8 bilhões por unidade, atingindo R$ 40 bilhões para a instalação de 6.800 MW.
O país dispõe de capacidade tecnológica, de recursos humanos e de conjunto de recursos naturais para expandir a oferta de energia elétrica, em dados aproximados: 150 mil MW de potencial hidráulico remanescente, em adição aos 100 mil MW já desenvolvidos e em desenvolvimento; 143 mil MW eólicos; 15 mil MW de biomassa, mormente bagaço de cana; 17 mil MW em pequenas centrais hidrelétricas; 10 mil MW em cogeração e geração descentralizada por gás natural.
Isso tudo sem as possibilidades decorrentes da repotenciação e da modernização de usinas antigas e dos programas de racionalização do uso de energia. A energia eólica vem apresentando uma curva de aprendizado tecnológico notável, no mundo e no Brasil, conforme demonstrado pelas contratações recentes, com custos declinantes, já competitivos com a opção nuclear.
A própria opção fotovoltaica, conectada à rede de distribuição, tende a repetir o sucesso da eólica. Várias combinações entre esses recursos são possíveis para suprir a energia disponibilizada pela alternativa nuclear proposta, todas elas com custos de cerca da metade da opção nuclear, economizando mais de R$ 20 bilhões em investimentos para o mesmo benefício energético.
O desenvolvimento de 70% da capacidade hidráulica e de 50% do potencial eólico permitiria gerar anualmente cerca de 1,4 bilhão de MWh de fontes inteiramente renováveis, produção superior ao 1,1 bilhão de MWh requerido para atender a demanda brasileira prevista para a década de 2040, considerando uma duplicação do consumo per capita anual, para 5 MWh (semelhante ao padrão atual de Itália e Espanha), quando, segundo o IBGE, a população se estabilizará em torno de 220 milhões.
Há uma tendência natural de complementaridade das disponibilidades energéticas entre os ciclos hídrico e eólico. Além disso, eventual complementação com usinas térmicas, com suprimento flexível de combustível para operação em períodos hidroeólicos críticos, permitiria aumentar a confiabilidade e reduzir os custos.
É natural que países destituídos de recursos energéticos, como Japão, Coreia, França, ou mesmo Índia e China, lancem mão da opção nuclear como principal alternativa. Mas a dotação de recursos do Brasil permite outra estratégia.
A construção de usinas nucleares, por si só, não garante avanços significativos no domínio da tecnologia nuclear. A consolidação de nossa capacidade nuclear, inclusive para geração elétrica, depende de planejamento, projeto, desenvolvimento e construção de reatores, especialmente de pesquisa, no país. Há dois projetos para tanto.
O primeiro é o reator experimental de 50 MW, de iniciativa da Marinha, projetado e cujos equipamentos foram construídos e estão estocados há 20 anos. Ele deveria, finalmente, ser montado e operado, podendo testar tecnologia de convecção natural, base da segurança passiva, capaz de garantir o resfriamento do núcleo mesmo na ausência de energia elétrica.
Outro é o reator de alto fluxo de nêutrons, para teste de materiais, apoio a pesquisa em agricultura, biologia e medicina e produção de radioisótopos, caros e em falta.
O investimento estimado para os dois projetos é de cerca de R$ 1 bilhão, 5% dos custos economizados com o cancelamento do plano atual de geração nuclear e sua substituição por outras fontes, renováveis, sustentáveis e sem deixar como herança carga radioativa a exigir cuidados das gerações futuras.

ILDO SAUER, doutor em engenharia nuclear pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology, nos EUA), é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Energia da USP e diretor de energia da Fiesp. Foi gerente do projeto do Circuito Primário do Reator Nuclear da Marinha (1986-1989).

Folha de São Paulo, 05/04/2011, Tendências e Debates, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0504201107.htm

terça-feira, 5 de abril de 2011

OEA solicita suspensão imediata de Belo Monte

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) solicitou oficialmente que o governo brasileiro suspenda imediatamente o processo de licenciamento e construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte, no Pará, citando o potencial prejuízo da construção da obra aos direitos das comunidades tradicionais da bacia do rio Xingu. Abaixo, os pontos mais importantes da nota divulgada pelo Movimento Xingu Vivo para Sempre e do documento da OEA:

De acordo com a CIDH, o governo deve cumprir a obrigação de realizar processos de consulta “prévia, livre, informada, de boa-fé e culturalmente adequada”, com cada uma das comunidades indígenas afetadas antes da construção da usina. O Itamaraty recebeu prazo de quinze dias para informar à OEA sobre o cumprimento da determinação.

O documento da OEA afirma que o Brasil deve garantir que as comunidades indígenas beneficiárias tenham acesso a um estudo de impacto social e ambiental do projeto em um formato acessível tanto à sua extensão como no que diz respeito à tradução aos respectivos idiomas indígenas.

A decisão da CIDH é uma resposta à denúncia encaminhada em novembro de 2010 em nome de varias comunidades tradicionais da bacia do Xingu pelo Movimento Xingu Vivo Para Sempre (MXVPS), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Prelazia do Xingu, Conselho Indígena Missionário (Cimi), Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), Justiça Global e Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente (AIDA).

De acordo com a denúncia, as comunidades indígenas e ribeirinhas da região não foram consultadas de forma apropriada sobre o projeto que, caso seja levado adiante, vai causar impactos socioambientais irreversíveis, forçar o deslocamento de milhares de pessoas e am eaçar uma das regiões de maior valor para a conservação da biodiversidade na Amazônia.

A CIDH também determina ao Brasil que adote medidas vigorosas e abrangentes para proteger a vida e integridade pessoal dos povos indígenas isolados na bacia do Xingu, além de medidas para prevenir a disseminação de doenças e epidemias entre as comunidades tradicionais afetadas pela obra.

O Ministério Público Federal no Pará impetrou 10 ações judiciais contra o projeto, que ainda não foram julgadas definitivamente.
A decisão da CIDH determinando a paralisação imediata do processo de licenciamento e construção de Belo Monte está respaldada na Convenção Americana de Direitos Humanos, na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), na Declaração da ONU sobre Direitos Indígenas, na Convenção sobre Biodiversidade (CBD) e na própria Constituição Federal brasileira (Artigo 231).

http://noticias.uol.com.br/politica/2011/04/05/oea-solicita-suspensao-imediata-de-belo-monte.jhtm